O testamento
Esta é a verdadeira história de um homem capaz de
construir o destino

Antes
de pensar em suicidar-se naquele Verão de 1907,
Bonifácio Alves Teixeira deixara no seu testamento mais
do que "um exemplo de benemerência": um tratado sobre a
natureza e a mentalidade humana entre o pensamento e a
praxis. Sem hipocrisia e afastando-se das
palavras bonitas, ou seja, de tudo aquilo que tipifica o
vulgo lusitano.
Esta história não resume o suicídio à descrição de um
acto desesperado! Não procura causas remotas nem o
verdadeiro leit motif embora saiba onde ele
reside. Paradoxalmente, este acontecimento vale pelas
aberturas criadas post mortem. Significa acima de
tudo um ponto de partida ou os alicerces de uma atitude
perante o homem e a sociedade.
Quando partira para o Brasil aos catorze anos (1860),
Bonifácio Alves Teixeira nunca imaginaria um regresso à
terra natal de Vidago com bolsos cheios e ideias
iluminadas! Tudo resultado de um vida de negócios (?),
de investimentos em acções bancárias com algumas
heranças à mistura; e de muitas viagens pela América,
Europa e parte da Ásia. Um cosmopolitismo que é
provavelmente a primeira base teórica (se quisermos o
pano de fundo) de um espírito liberal e excêntrico!
O "mal ruim" que o apoquentava foi o ponto de fuga para
o provocar da morte. Essa fuga para a frente, ao ser
tipificada pela minúcia e transparência de um
testamento, feito previamente, permite a não banalização
do acto e paralelamente o enobrecimento do sujeito. Eis
a crónica de uma morte anunciada, um ano antes...
O
documento apresenta um rol de tarefas a realizar, de
modo que a localidade de Vidago seja dotada de duas
Escolas Primárias “uma para meninas e outra para
meninos” e uma Escola Móvel Agrícola. Tudo
escrupulosamente discriminado: utilização dos dinheiros,
pormenores de construção, actividades a desenvolver...
“Em
nome de Deus, Amen”.
Assim começa o testamento com que faleceu Bonifácio
Alves da Silva Teixeira demonstrando um pensamento
religioso fundamentado na fé e na crença. Creio
existir um Deus que tudo governa e determina,
acrescenta de imediato. Duas expressões que corroboram a
ideia de Deus. No entanto, logo a seguir apresenta
ideias intrigantes e algo contraditórias quando afirma
não acreditar em revelações nem em nada sobrenatural.
Mas, também não é verdade que a fenomenologia ambiciona
a um Deus independente do Mistério? Como se fosse
possível contextualizá-lo nas leis naturais? Aqui se
incluem as permanentes polémicas à volta da figura de
Cristo! Uma questão sempre actual... Igualmente
manifesta desprezo por toda a teia clerical, cerimónias
religiosas e peias dogmáticas ligadas ao culto. Se a
lei não proibir, quero que o meu cadáver seja queimado
juntando-se para isso dois carros de achas de lenha; o
meu cadáver colocado ao alto e depois de tudo, lenha e
cadáver, ser bem regado de petróleo, lançar fogo a tudo,
e, quando tudo estiver reduzido a cinzas, espalhar estas
que são potassa, bom adubo para as terras.
Obviamente que a mentalidade e a legislação, vigente na
época, não autorizaram essa ousada pretensão! Prevendo
que tal acontecesse, apresenta a solução com um
pragmatismo quase instantâneo quero então ser
enterrado no cemitério, em carneiro,1
(...). Sendo o meu cadáver queimado ou enterrado
civilmente, como determino, não quero funeral, nem
missas, nem reza de ano, nem oficio nem nada, porque não
creio que essas ciosas sejam úteis para a minha alma,
antes as considero nocivas. Indagados alguns
familiares descendentes dos amigos de Bonifácio, estes
revelaram que também esta aspiração alternativa acabo
por não se concretizar. Embora, as cerimónias religiosas
fossem reduzidas ao mínimo permitido. Antecipa. Desta
forma e com alguns anos de adianto, a onda marcadamente
anticlerical que surgiu nos primórdios do
republicanismo. Uma atitude firme do ponto de vista
ideológico!
Também na orgânica das Escolas Primárias encontramos a
presença da questão religiosa. Com detalhes extremamente
geniais, e para além dos pormenores técnicos da
construção dos edifícios, esboça o perfil dos
professores. Serão as duas escolas fechadas se (...)
tiverem por professor ou professora padres, frades ou
freiras; pais, mães, irmãos ou irmãs de padres, frades
ou freiras (...), isto de qualquer religião, não se
podendo ensinar, nas ditas escolas, doutrinas
religiosas, as quais (doutrinas) é aos pais que compete
ensinar. Esta atitude preconiza a ideia de
laicização2 que os governos republicanos vão
posteriormente defender ao criar (e regulamentar) a Lei
da Separação do Estado e da Igreja. Neste caso, não quer
a presença da religião no ensino. Evidentemente que, por
detrás tudo isto podem estar leituras clandestinas sobre
a rès publica. A coisa pública, pois! O poder! Ou
o advento da República em vez da Monarquia! Já a
seguir...
Ainda na vertente educativa, esta personalidade
impressiona pela importância dada ao conceito de Educar
Para A Cidadania. Em termos concretos, deixa vinte
quadros para ambas as escolas onde se mandará
imprimir, com a máxima clareza, alguns conselhos úteis e
algumas máximas morais (...). Embora com uma
utensilagem mental própria da época, cada uma delas
remete para um percurso pedagógico que marca toda
actualidade do processo ensino-aprendizagem em Portugal.
Escolhemos algumas Todas as pessoas nascem para
serem livres ou o medo não existe (ambas ligadas aos
Direitos Humanos); Sendo as pessoas superiores aos
brutos, não devem imitar estes, sujando os passeios
públicos com porcarias, com coisas repugnantes à vista e
prejudiciais à saúde (a Higiene Pública); As
árvores não se destroem, porque as árvores produzem
frutos para comer (...), e purificam o ar que respiramos
(uma ideia Ecológica?!); Os animais domésticos não se
maltratam, uns por serem úteis, outros por serem guardas
e outros por ajudarem os homens nos seus trabalhos
(ou os Direitos dos Animais!); O trabalho, qualquer
que seja, honra as pessoas ou ninguém deve
envergonhar-se de trabalhar (um atitude de
valorização e dignificação do próprio homem enquanto
cidadão); A vaidade é prejudicial aos homens, e muito
mais às mulheres... (Sem comentários!) Correlações
todas elas ligadas à Formação Cívica. Neste sentido
antecipa-se à própria teorização que esta a ser feita
actualmente pelas autoridades competentes!3
Relativamente à Escola Móvel Agrícola simplesmente
adianta que esta há-de funcionar sempre. E funciona!
Tudo partiu daquele bolo inicial oferecido por
testamento que serviu para aquisição do terreno. Ele que
preconizava um serviço de extensão agrária para os eu
concelho e alguns vizinhos. A partir de final dos anos
oitenta passou a designar-se Centro de Formação Agrária
"Alves Teixeira", em Vidago.
Todo o testamento é um exemplo de clareza e pragmatismo,
quer nas ideias quer nas tarefas conducentes à execução
oficialmente correcta do mesmo. Desde a gestão dos bens
e dinheiros até ao controlo das tarefas a executar! Como
se o testamento se fiscalizasse a si próprio! Exemplos.
Se não forem cumpridas todas as condições que imponho
para o funcionamento das três escolas, determino que
prédios, obrigações ou dinheiro, tudo, (...) passará
metade para a Misericórdia de Chaves e a outra metade
para a Misericórdia de Vila Real.... Mais! Atribui
responsabilidades a quem de Direito! Senão vejamos!
(...) Incumbo à Câmara Municipal de Chaves, bem como
aos demais interessados, de vigiarem pelo exacto
cumprimento das condições que estabeleço para regular o
andamento das três Escolas que fundo. Marco o prazo de
um ano para prestação de contas a quem de direito do
presente testamento.
Pelo meio, encontramos ainda criticas ao funcionalismo
publico e à politiquice que envolve a administração das
misericórdias . Palavras para quê? Se nunca as palavras
foram tão poucas!
O gosto pelo pormenor não é sinónimo de requinte, mas
sim uma forma de combater o erro e a fraude! São
carradas de generosidade a viajar por sinuosos caminhos.
Não estranha pois a desconfiança do testador... Deixo
dois contos de réis para ajudar a abastecer de boa água
a aldeia de Vidago, mas cautela que não se gastem sem
obter água. A gente de Vidago é comilona e mais alguma
coisa. Das rendas do capital obtinha-se recursos
para ocorrer às despesas, mas cuidado (...) não comam
o dinheiro sem nada repararem ou conservarem. Os ladrões
são muitos. Remata o dito cujo Bonifácio.
Que não se esquece dos pobres, na altura do testamento
e, até depois... Aos pobres de Vidago, de um e de
outro sexo, honrados, velhos, impossibilitados de
trabalhar, cegos, inválidos, deixo cem mil réis, não
podendo a dádiva a cada um ir além de dez mil réis .
Todos os legados que deixo são livres de qualquer
imposto de contribuição. Limpinhos e sem encargos!
A morte segundo um testamento? Uma suprema simbiose
entre a teoria e a prática, entre a filosofia e a
realidade? Um exemplo de vida, porque saber morrer
também é uma virtude? Pragmatismo em doses tão elevadas,
que chocam com o espirito latino? Sem deixar de ser
nobre, a solidariedade pode ser quantificável? A morte
também pode ser bonita? Tantas interrogações para buscar
um simples título.. Qualquer deles serve, mas também
qualquer deles é insuficiente! Porque Bonifácio Alves
Teixeira (1846/1907) simplesmente revelou genialidades
de um simples homem. Nem sequer foi preciso ser um
génio! Esses só nascem nas lâmpadas de Aladino!